Libido e ludicidade (comentário baseado nos estudos da Psicopedagoga e Psicanalista Maria da Penha Rocha

O comentário que recebi da Psicanalista e Psicopedagoga Dra Maria da Penha Rocha veio levantar pontos que devem ser analisados com bastante atenção, principalmente para aqueles profissionais que, ligados à educação, perseguem verdadeiros objetivos ligados à transformação social.

Em seus estudos Penha defendeu a LIBIDO como sendo a ENERGIA VITAL mantenedora das funções orgânicas.

Quando o assunto é criança “…a palavra já nos fala de ingenuidade, brincadeira, ludicidade; um ser cuja formação fica norteada por adultos, na grande maioria com má formação e conflitos não resolvidos…” (Penha, outubro/2008)

Vejam o imenso desafio encontrado por esse pequeno ser em formação! Os responsáveis pelo direcionamento de seus caminhos estão perdidos em seus próprios caminhos, se é que alguma vez souberam que existem caminhos a definir. Muitos acham que é só deixar-se levar… embalados pela musicalidade ambiente pornorepetitiva, eliminadora de qualquer possibilidade raciocínica (sem querer enfatizar a parte cínica do raciocínio…)

Esses elementos adultos “…esqueceram ou esquecem que o adulto tem uma criança esquecida dentro de si mesmo, uma criança interior, um ser que precisa continuar se externalizando para que ele se permita ter um melhor relacionamento com os pequenos que estão sob sua responsabilidade.” (Penha, idem)

O mundo exterior repleto de propagandas consumistas e inversoras dos verdadeiros valores humanos responsáveis pela construção da felicidade elimina do adulto a possibilidade dele se lembrar que um dia foi criança.

Ao impossibilitar que pense um mundo sem maldades ou sem segundas intenções (as letras das músicas estão aí para enfatizar essa manipulação negativa da mente adulta) o adulto esquece seu lado ingênuo e infantil.

E todos sabemos que “Um adulto que conhece seu lado criança, sabe lidar bem e melhor com crianças.” e que “É óbvio que essa ludicidade deve acompanhar todo o desenvolvimento do ser humano.” (Penha, idem)

Embora seja difícil saber exatamente onde estão os pontos básicos para o correto desenvolvimento do caráter da criança, a não ser que seja feito um estudo profundo das fases de desenvolvimento analisadas por Freud, Wallon, Erikson e outros pensadores da área, a naturalidade e o amor (lembre de incluir limites) ajudam no acerto.

Mas essa naturalidade, amor e limites só acontecem se estamos desligados de nossas possessividades, sendo pais, e de nossos orgulhos de competência, se somos professores, trazendo a criança para o primeiro plano de nossas atenções e dando a ela o amor verdadeiro que ela precisa desde o nascimento até o final da adolescência. Sim! Até o final da adolescência, porque a fase mais carente é exatamente a fase que inicia aos 12 ou 13 e só termina após o ciclo da puberdade completo!

Rousseau já dizia embora haja controposições de outros pensadores, que a
criança nasce e se desenvolve perfeita e a sociedade é que a destrói. Mais do que isso ela “…cresce e se desenvolve naturalmente sem conflitos e com integridade psicofísica, num desenvolvimento intelecto-emocional equilibrado e correto, com o foco fora da energia libidinal retirada do sexual para a energização vital, orgânica, promovendo um desenvolvimento à criança como um ser integrado e cuja consciência desperta à medida que recebe estímulos, informações e conhecimentos adequados, elaborados e passados por ensinantes pacientes, flexíveis, mas firmes: formadores de personalidades e de caráter.” (Penha, idem)

Quando Penha toca nesse “ensinantes pacientes, flexíveis, mas firmes: formadores de personalidades e de caráter” eu tremo nas bases!!!!! Esse é o nosso maior desafio! Como convencer aos pais e aos professores que eles têm a obrigação de serem esses ensinantes que Penha evidencia em seu texto? Alguns até são pacientes, mas pecam pela falta de firmeza. Outros são excessivamente firmes, mas intolerantes e sem paciência. Uma parte é totalmente inflexível, com medo de estar sendo fraco ou estar demonstrando incompetência!

Mas temos a obrigação de buscar essa competência a cada dia e ajustar nossos procedimentos na medida em que descobrimos mais uma nossa falha. Exatemente por isso que a humildade deve ser o nosso ponto de partida. Ouvir muito. Procurar lembrar de nossos encontros com nossos educandos. Procurar opiniões de quem possa assistir nossas aulas. Procurar usar toda tecnologia existente para observarmos nossos defeitos.

A humildade é a base maior de todo esse caminho na direção do acerto. Sei bem disso porque necessito dela a todo momento. É comum para mim, depois de passar anos e anos estudando e pesquisando um determinado assunto muito complexo, discutindo esse assunto com outros cientistas da mesma área e chegando a conclusões que me pareceram brilhantes, encontrar uma pessoa comum, sem qualquer tipo de formação acadêmica, apenas um curioso, que me traz uma informação muito mais importante e muito mais correta do que muitas das conclusões a que eu havia chegado com meus estudos e pesquisas! Isso é fantástico quando estamos abertos ao diálogo e, principalmente quando estamos abertos a ouvir ativamente alguém.

Em um outro momento lembro-me do dia em que, depois de ter desenvolvido todo um planejamento de exercícios de valores humanos para o meu projeto educacional, alguém me apresentoou a Diane Tillman, em Nova Iorque! Ao tomar conhecimento de seu trabalho praticamente “joguei fora” tudo o que eu havia preparado e adotei suas obras, hoje utilizadas em todo o sistema IUPE, na parte de valores humanos.

Mas voltando ao comentário sob libido e ludicidade concordo completamente com Penha quando ela diz que: “o que leva as meninas manter a atenção no seu oposto, é o fato de que as informações recebidas na escola, não encontram ressonância em suas casas. Infelizmente não estou nem me referindo em seus lares, porque a maioria não considera sua casa, um lar. Um pouco de conversa com elas, nota-se que o outro lado da ponte lúdica não existe em seus lares ou nunca existiu. É como se elas, existissem em dois universos diferentes.” (Penha, idem)

Essa realidade é terrível, mas é um fato! A evolução biológica está se dando mais rápida e por isso os pais estão abandonando a criança e vendo a filha como uma mulher miniatura ou é exatamente essa visão deturpada dos pais que está apressando a evolução biológica sem qualquer preparo amocional?

O desafio lançado por Penha é muito interessante: “…quantas meninas brincam ou brincaram de casinha de bonecas. (?)Quantas foram incentivadas pelos pais a buscar o seu lado lúdico naturalmente. (?)” (Penha, idem)

Comentei que Freud abandonou a fase de latência porque para ele quando não há sexo, não há interesse de estudo… uma licenciosidade psicanalítica minha, é claro, já que não posso deixar de assumir que não existe ainda maior gênio que Freud no entendimento humano!

Muito embora sua tia, em uma conversa íntima depois que ele se queixava do abandono de seus amigos (Jung e outros) disse-lhe: Sigmund, seu mal é você não saber entender as pessoas! Uma declaração dessas dirigida a Freud parece piada!!!! Mas a tia tinha lá suas razões…

Pesquisando a fundo as entrelinhas freudianas encontramos exatamente o que Penha alerta: “…nessa fase pode-se transformar INSTINTOS E MÁS FORMAÇÕES INFANTIS, JUSTAMENTE POR ESTAR A ENERGIA LIBIDINOSA SUSPESA.” (Penha, idem)

Infelizmente, como também Penha concorda, essa fase não é mais LATENTE… A mídia consumista e incentivadora de antivalores transformou essa fase em FASE DA SENSUALIDADE, transformando momentos que deveriam estar dedicados exclusivamente ao lúdico e ao intelecto, quando a criança está em seu momento máximo de potencialidade intelectual, em momentos de sensualidade no vestir, no dançar, no expressar-se, no oferecer-se, estimulando, inclusive, a proliferação de personalidades pedófilas de oportunidade.

Na cultura bem representada por Thomas Mann em seu clássico “Morte em Veneza”, transcrito para o cinema por Luchino Visconti, a paixão pedófila irresistível evidenciava um transtorno sexual bem claro no personagem, uma vez que o menino, embora muito bonito, evidenciava uma beleza infanto-juvenil transbordando de ingenuidade.

Hoje o comportamento, a forma de se vestir (ou de se despir) e as atitudes dos meninos e meninas, influenciados pela sociedade repleta de antivalores, dispensa a necessidade de um elevado grau de transtorno psíquico, estimulando o interesse sexual onde ele não deveria existir.

Nosso trabalho, então é estimular a ludicidade e apresentar todas as opções possíveis para que ocorra, naturalmente e no momento certo, o correto desenvolvimento intelecto-emocional da criança, eliminando os apelos sensualizantes que deturpam toda a construção do caráter nessa fase de latência assim como nas demais.

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