IUPE Educação: Prazer de educar

O comentário que recebi da psicanalista e psicopedagoga Maria da Penha Rocha me estimulou a pensar de novo nas orientações que Comenius nos passou desde o século XVII!
Sei que ler Comenius é difícil, principalmente para quem não é religioso, já que ele insiste em ligar a educação à causa Divina! Mas percebe-se que ele faz isso de forma entusiástica, empolgado por uma iluminação que, possivelmente, havia em seu processo mental.
Mesmo sendo uma obra difícil de ler, todos os educadores deveriam investir um pouco de seu tempo na leitura de trechos de Comenius todos os dias! Ele fala diretamente a todos nós, mas precisa ser muito bem entendido, principalmente por aqueles que, embora estejam trabalhando em educação, não conseguiram ainda se entregar a essa maravilhosa causa!
Penha Rocha lembrou que Comenius defendia a ideia de: “(…) ensinar tudo a todos objetivando a aproximação do homem a Deus, fossem ricos, pobres, ou portadores de deficiências (…)”. Essa frase, entretanto, pode ser entendida de forma incorreta, já que ensinar tudo a todos pode parecer que todos sejam obrigados a aprender tudo.
Para evitar má interpretação Penha Rocha lembra mais um trecho da obra onde ele fala: “(…) se ensinar a crianças bem pequenas, mesmo que elas aparentemente não aprendessem, já que, mais tarde, elas lembrariam as ideias internalizadas (…).”
Isso não significa, absolutamente, cobrar o resultado de todo esse conhecimento ensinado, mas sim o ensinar pelo prazer de comunicar um conhecimento que poderá ser absorvido como positivo para o seu desenvolvimento.
No nosso dia-a-dia essa parte do processo de ensino deve ser praticada desde o momento em que a criança se encontra no útero materno. Essa parte é a conversa informal educativa que a mãe e o pai devem ter com seus filhos apresentando-os ao mundo. Eles podem parecer não estar entendendo, principalmente se ainda não nasceram, mas em suas mentes alguns desses conceitos já começam a formar arquivos de memória que serão importantes para a sua vida futura.
Na neurodidática costumamos analisar o processo de aprendizagem em diversas fases bem distintas: iniciamos com o entendimento, que se dá durante a explicação na aula; em seguida vem a aprendizagem, o que ocorre quando o aluno, sozinho, no mesmo dia, realiza as tarefas de casa; durante o sono surge a oportunidade da fixação, período mais importante de todo o processo e que consome a maior parte da energia da pessoa e; a partir do dia seguinte vem a solidificação do que foi fixado, por meio de práticas avaliativas em sala de aula.
Comenius cita três fases: a compreensão, a retenção e a prática. A compreensão corresponde ao entendimento da aula e a aprendizagem por meio de tarefas individuais em casa. A retenção pode ser entendida como a fixação durante o sono, quando as redes sinápticas do córtex cerebral são reformatadas, gravando na memória o que foi aprendido naquele dia. A prática pode ser entendida como alguma forma de avaliação processual.
Quando ele diz que devemos ensinar sem descriminação, permitindo que cada aluno alcance o saber que lhe seja mais apropriado, eu me lembro da “Escola dos Bichos”, em plena selva, cuja grade curricular (provavelmente preparada por uma educadora do nosso sistema educacional) incluía natação, mergulho, voo, escalada, corrida, perfuração de solo e construção de ninhos em árvores.
Como é fácil de prever, o resultado final dessa escola em muito se assemelha ao resultado final de nossas “escolas de gente”… Todos foram reprovados porque, para receber o diploma, precisariam todos estar dentro de um padrão estabelecido, e não dentro dos padrões de suas próprias características intelectuais e habilidades.
Nessa hora a outra frase de Comenius vem a calhar: “Age idiotamente aquele que pretende ensinar aos alunos, não o que eles podem aprender, mas sim o que ele próprio deseja.”
O educador, então, deve partir daquilo que o aluno sabe para estimulá-lo a aprender ainda mais.
O educador se satisfaz, a cada momento, com qualquer pequeno progresso de seu aluno, independente do progresso dos demais, ou seja, cada aluno só é comparado com ele mesmo, ontem.
O educador estimula e reconhece a produtividade do aluno, preocupado com a manutenção ou elevação da sua autoestima.
Afinal, poder educar deveria ser considerado como uma dádiva Divina!
Saber dessa realidade é bom. Praticá-la significa construir uma felicidade! Mas para praticá-la precisamos nos despir de todas as resistências facilmente emergentes em nossos pensamentos e que surgem em frases como: “(…) é, mas com algumas crianças isso é impossível! (…)”, ou alguns comentários como: “(…) eu me controlo muito para não reagir à irritação dos meus alunos! (…)”.
Eliminadas essas resistências estaremos contribuindo para com a formação correta da mente de crianças e de adolescentes. Nossa missão começa aí.
E a importância dessa missão aumenta quando sentimos o poder que todos nós temos de trazer felicidade àquele que, sem possibilidade orgânica de se expressar ou de se mover, ou de ter todos os seus órgãos dos sentidos funcionando corretamente, procura alguém que lhe compreenda, alguém que lhe dê atenção, alguém que o considere como ser pensante!
Essa felicidade é a que eu tenho visto, refletida nos olhos de meninos e meninas tetraplégicas, em diversas partes do mundo, como Adjatay, de Camarões, Thato, de Botsuana, Shirley, da Grã-Bretanha, Luiza, de Juazeiro da Bahia e muitos outros.
Esses são apenas alguns exemplos, representando o universo de crianças e adolescentes que estariam abandonados à própria sorte se não recebessem o apoio afetivo de seus familiares, colegas e professores.
Resultados como esses são impagáveis e sempre compensadores! Só nós, educadores, podemos sentir esse prazer e assim construir um alicerce sólido para sustentar a felicidade.

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