O início da vida de uma criança – FASE ORAL

Hoje vamos conversar sobre a primeira fase de desenvolvimento da criança, que Freud chamou de fase oral, para que os pais não cometam erros que possam comprometer a saúde psíquica e emocional da criança.

No meu livro, Afetividade na Educação, essa fase está analisada da página 77 até a página 81.

Primeiramente vamos ver o desenvolvimento cerebral da criança

Durante muito tempo as crianças não eram consideradas como seres diferentes nem com características específicas da sua idade.

Elas eram consideradas adultos em crescimento. Ainda há quem pense assim.

Mas estudando o desenvolvimento de seu cérebro, constatamos que suas redes neurais vão sendo formadas e programadas aos poucos, na medida em que seu corpo se desenvolve.

Esse desenvolvimento e a programação dessas redes neurais, embora sigam uma certa sequência lógica, diferem, de criança para criança, devido as diferenças no ambiente em que se encontram.

Importante dizer que chamamos de ambiente, além do espaço físico, as atitudes das pessoas em relação a elas, os sentimentos e emoções nas relações interpessoais e os fatos ocorrendo ao seu redor.

Tudo isso captado pelos elementos sensores, que são: visão, audição, tato, paladar, olfato e mais todos os que não conhecemos ainda.

Tudo isso vai interferir na formação da sua personalidade.

Quando essa relação da criança com o ambiente não é satisfatória, isso interfere também nas futuras neuroses.

Por isso que é imprescindível que pais e educadores conheçam cada fase desse desenvolvimento.

Só assim todos poderão contribuir para que a criança tenha uma vida saudável, tanto na sua parte física, como na sua parte psíquica e emocional.

Sói assim haverá reflexos positivos na formação da sua personalidade.

Vamos ao instinto de imitação

A imitação é a única forma do ser humano construir as suas características comportamentais.

Embora a maioria das outras espécies desenvolva suas características próprias sem precisar imitar seu semelhante, no ser humano isso é parte fundamental do processo de desenvolvimento.

Basta analisarmos os casos históricos de crianças criadas por animais, como os meninos lobo da Índia, para percebermos o ponto a que chega a imitação.

A criança, nessa fase, tem muita dificuldade para entender, tanto o adulto, como o ambiente. Afinal, tudo é novo!

Mas, mesmo não sabendo o que significa nem o ambiente e nem as pessoas, ela observa, tenta imitar gestos, sons e tudo o mais, para se sentir integrada ao meio.

Em relação à fala, ela vai tentando reproduzir o que ouve, se esforçando para chegar a perfeição.

O adulto fala e a criança ouve o som das palavras.

A criança tenta imitar, mas como a musculatura da fala ainda está em desenvolvimento, a reprodução tem muitas falhas, mas ela continua tentando se aperfeiçoar cada vez que o adulto repete o que disse.

É aí que acontece um dos erros dos adultos, que é falar com a criança infantilizando a sua pronúncia, ou seja, imitando a forma da criança falar!

Esse erro só atrapalha a criança, fazendo com que ela demore muito mais a falar de forma correta.

Mas, ainda em relação à imitação, é bom saber que, além de imitar, elas podem, também, pensar de forma própria e agirem de maneira criativa.

Precisamos observar com muito cuidado sua fala e suas atitudes, para procurar perceber se ela está errando, entendendo incorretamente ou criando uma forma diferente de realizar a mesma atividade.

Agora, o instinto de sobrevivência

Voltando aos primeiros dias da vida da criança, para que ela sobreviva, a sua mente programa seu instinto de necessidade de satisfação oral.

Assim ela tentará se satisfazer pela boca, mamando e se alimentando.

Essa satisfação foi a primeira que Freud identificou como resultado da força impulsionadora da libido!

Esse instinto é muito forte!

Se o simples ato de mamar a satisfaz, ótimo! Essa satisfação será a primeira de uma série de satisfações que vão construir, na criança, um equilíbrio emocional fundamental para toda a sua saúde física e psíquica futura!

Mas, se por acaso, o ato de mamar não for suficiente para essa satisfação, a criança vai demonstrar necessidade de continuar sugando ou mordendo.

Nesse caso é importante satisfazer essa necessidade por meio de chupetas e mordedores, já que a insatisfação não compensada, serve como um dos primeiros elementos geradores de neuroses, com reflexos para toda a vida adulta.

A polêmica em relação à chupeta e mordedor deve-se a possibilidade de ambo concorrerem para a má formação da arcada dentária.

Verdade, mesmo que sejam as ortodônticas, etc…

Mas o cuidado com a satisfação oral deve prevalecer nesse caso, ainda mais que isso só será necessário até o final dessa fase, o que vai ocorrer entre um ano e um ano e meio de idade.

Lembro que isso não significa sair enfiando chupeta na boca das crianças, mas sim oferecer apenas àquelas que demonstram não estarem satisfeitas com o simples ato de mamar.

E agora, o instinto exploratório – mãe ser supremo

A criança, nova no mundo, tenta explorá-lo ao máximo!

Ela não pediu para vir ao mundo, como bem disse Heidegger na parte de seu “SER E TEMPO” chamada de Existência Inautêntica do Ser.

Mas, já que ela está, ela quer conhecer tudo e se apoderar de tudo!

Ela tenta se identificar com o mundo e se apropriar dele.

Em seu raciocínio ela, ao se apropriar de tudo, se identifica como centro do universo e, ao mesmo tempo, entende o universo como parte de seu corpo.

Nessa linha de pensamento, sua mãe também está incluída. Ela também faz parte de seu corpo.

Essa criança se sente totalmente dependente da sua mãe.

Lembrem que a criança considera como mãe aquela que provê o seu conforto e a amamenta.

Estando junto dessa mãe, a criança tem certeza de que não está abandonada à própria sorte no mundo.

Quando há essa identificação com a mãe, a ideia absorvida é a que sua mãe é um ser supremo, luminoso, iluminado! Essa identificação é necessária.

Podemos comparar essa necessidade com aquela que leva todos os povos primitivos a criar seus mitos, seus deuses, ou seus super-heróis.

Essa é a primeira “aventura” intelectual do ser humano.

A presença dessa mãe, com a qual ela se identifica, “resolve” o enigma dos mistérios do conhecimento nessa fase.

Essa sensação estabiliza suas possíveis angústias.

E ela cria um bom conceito de si mesma e do mundo. Ela percebe que sua existência é autêntica. Ela faz parte do mundo.

Mas, se não houver essa identificação, como por exemplo, ausência afetiva da mãe, o que acontece?

Esse é o primeiro sinal de uma angústia, já sendo construída na criança, antes mesmo de ela ter completado seu primeiro ano de vida.

Vão surgir dúvidas sobre o mundo e começarão a aparecer as angústias sobre o próprio ato de conhecer.

Essa angústia infantil transforma o mundo, onde a criança acabou de chegar, em um mistério inalcançável e um grande desconhecido.

É a primeira vez que essa criança começa a achar que tem algo errado na sua existência.

Ela começa a desconfiar da mãe e do ambiente.

E, como quase tudo o que ocorre nessa fase, esse sentimento tende a ser projetado em relação à sociedade e ao mundo.

Essa criança tende a se tornar agressiva, perde o entusiasmo e não consegue desenvolver suas competências.

Vamos à imposição de limites

No momento anterior, quando a criança se apropria de tudo, incluindo sobre sua mãe, ela tende a querer mais do que tem e ser mais do que é.

E, para evitar que tais necessidades exploratórias e de apropriação se tornem exageradas e venham a se tornar mais um elemento causador de angústias geradoras de neuroses, começa, agora, a necessidade de que toda a afetividade seja completada com limites.

Havendo imposição de limites, a criança passa a perceber que alguém está se preocupando com ela. Isso constrói o sentimento de segurança.

Afetividade sem limites gera uma desconfiança em relação a todos. Isso porque falta de limites significa falta de cuidado e de atenção, ou seja, sentimento de desprezo e de abandono!

Como exemplo na imposição de limites está a mania de ficar com a criança no colo, principalmente quando ela chora.

Se ao chorar alguém a pega no colo, logico que ela vai querer chorar sempre, para se sentir abraçada em todo seu corpo pelo corpo de um adulto, e isso significa construir total insegurança para com o mundo.

O certo é ir afaga-la, acaricia-la, e tudo o mais, mas com ela no berço ou no carrinho.

Dessa forma ela incorpora o ato de carinho do adulto com a sensação de estar acomodada no colchão.

Assim a criança sente o afago, a carícia, o amor, mas sente, ao mesmo tempo, a proteção física do colchão, significando que aquela segurança afetiva também está ligada ao mundo, representado pelo colchão de seu berço ou carrinho.

Resumindo o que vimos hoje:

Desenvolvimento cerebral da criança:

A criança vai programando seu cérebro, suas redes neurais, sob a influência do meio, ou seja: espaço físico, pessoas, emoções, sentimentos e fatos.

O instinto de imitação

A criança imita, mas não é para ser imitada pelo adulto, principalmente na forma de falar as primeiras palavras. Fala infantilizada de adulto só prejudica o desenvolvimento correto da fala da criança.

O instinto de sobrevivência

A criança precisa satisfazer o prazer de sugar e, para isso, pode haver necessidade de se oferecer chupeta e mordedor. Mas isso somente até o final dessa fase, que vai ocorrer entre os 12 e 18 meses de vida.

O instinto exploratório – mãe ser supremo

A criança inicia a exploração do mundo e tenta se apropriar de tudo. Ao se identificar com a mãe percebe que sua existência é autêntica. Se não se identificar, surge a angústia. Sua existência é inautêntica.

Imposição de limites

Só com o cuidado de ao dar afeto, esse afeto estar sempre acompanhado de uma clara imposição de limites, é que será construído, nessa criança, a segurança afetiva que ela necessita para o seu equilíbrio emocional e, consequentemente, a sua felicidade.